Pessoalidades

Leitmotiv

Sabe aquela sensação lá no fundo de que você precisa fazer alguma coisa? Às vezes parece que é algo chamando, outras vezes parece uma fagulha de uma ideia. Tem hora que parece que é um sinal, outras uma pulguinha atrás da orelha. O que acontece quando nós devidamente damos ouvidos a esse sentimento?

Esse sentimento vai embora na mesma rapidez que chega em diversos momentos ao longo da nossa vida, mas ele está ali, lá no fundinho, pronto para se manifestar de vez em outra… quando você vê um filme muito bom que mexe com seu coração; quando você vê um documentário inspirador; quando você está tomando café com alguém especial; quando está em devaneio no chuveiro; quando você vê alguém brilhando de sua forma mais genuína…

Chamei internamente esse sentimento de leitmotiv – o motivo condutor. Olhei para dentro de mim e consegui enxergá-lo presente em grandes momentos decisivos da minha vida, como quando criei este blog e quando tomei a decisão da minha formação. Mas também notei que, com o passar do tempo, meu motivo ficou adormecido. A correria do dia a dia o calou, deixou-o de lado.

Definição de leitmotiv

A rotina o ajudou a perder força, mas nunca sua presença. Eu sabia que ele estava lá e não sabia lidar com ele. Ora, minha vida tava ótima… meu emprego CLT estava muito bem, obrigada, por que eu iria querer sair? Eu tenho tido ótimo freelas para fazer meio período… Mas tinha alguma coisa que não me deixava satisfeita. O que era? Comecei a me questionar.

Essa quarentena me deu a oportunidade de olhar para dentro de mim e dar voz aos meus sentimentos com o carinho que eles merecem, em especial esse sentimento, que antes era inominável. Este sentimento que esteve comigo há mais de uma década, ora nebuloso, ora esclarecedor, mas sempre condutor. Foi quando o reconheci como um sinal. O acolhi e senti que eu precisava quebrar algumas coisas da minha vida para construir outras para dar voz.

Porque eu sabia que podia ter mais, e eu sabia que isso tudo tinha a ver com a minha vocação. Eu sentia como se eu tivesse tudo e nada ao mesmo tempo. Um emprego ótimo, freelas legais, mas um sempre reprimindo o potencial do outro. Me deparei com uma escolha, e eu não me sentiria plena novamente se não seguisse a minha intuição.

Sabe quando você realmente se dá conta de que nem o céu é o limite?
(Foto: Karolina Grabowska)

Eu fui corroída pelo medo. E se não der certo? E se não me for rentável? E se houver momentos em que não terei condições de pagar minhas contas? E se as pessoas não acreditarem e derem valor ao meu trabalho? Notei que o medo era o principal fator que me impedia de dar o passo que eu precisava. Aquele medo que nos retrai, que nos acomoda e nos fazem gostar disso. E neste tempo que eu olhei para dentro de mim, notei que que eu jamais avançaria se permanecesse refugiada nele. Eu sei do meu valor, do meu potencial. E se eu desse um basta nesse medo e abraçar o fato de que realmente sou capaz?, pensei.

Um frio na barriga começou a tomar conta de mim, o medo foi se transformando em outra coisa. Uma felicidade inexplicável passou a me inundar. Meu Deus, será que estou no caminho certo? E parece que em poucos dias meu leitmotiv foi mostrando mais sinais do universo. Foi ele ou Deus (ou será que um é a presença do Outro?) que me fez acordar um dia e acreditar que eu estava no caminho certo. Nunca tive tanta certeza na minha vida! E já no dia seguinte marquei uma reunião com a chefia para informar a minha saída.

Eu disse sim para o meu chamado. E quando o fiz senti a mesma plenitude que senti quando eu tinha apenas 16 anos que aprendi a escrever poesia em meio a linhas de código. Senti a mesma plenitude aos 18, quando prestei vestibular para Design Gráfico, e de quando tinha 22 quando peguei meu diploma. Aquela mesma plenitude quando entreguei meu primeiro trabalho, aos 17, quando percebi pela primeira vez que minhas mãos tinha a capacidade de realizar sonhos de outras pessoas. A mesma plenitude quando abri meu portfólio em 2010, aos 19, de nome anaflaviacador.com. A mesma plenitude de quando 7 anos depois este nome pessoal se tornaria o studio afcweb.design. E hoje, aos 29, eu disse o verdadeiro sim.

Hoje, escrevo este post com essa plenitude multiplicada por 10, com o meu leitmotiv fazendo parte da linha de frente da minha vida ao invés de plano de fundo. Eu disse sim ao meu ao meu studio, que sempre foi onde meu coração esteve. E agora serei totalmente dele, de corpo e alma.

Minha mãe sempre falou para mim que tudo tem seu tempo. E de fato, tem mesmo. Levei anos pra ter essa coragem de largar meu emprego e tocar meu próprio negócio, e acredito que agora é a hora. Talvez, se eu tivesse tomado essa decisão antes não teria o mesmo significado de hoje. Mas uma coisa é certa e independe desse ditado: sonhos ignorados nos fazem amargos; desejos deixados de lado sempre vão voltar à tona, se manifestando das mais diversas formas, como falei ali em cima nos primeiros parágrafos. Se você tem esse sentimento, ele vai te incomodar até você escutar.

Nosso leitmotiv não é cessado com nossa indiferença.

E muito menos pelo medo.
Quando será que você vai se escutar e dizer sim?


Comentários

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  • Luly Lage

    ANA!
    Eu tô meio engasgada aqui, mas preciso te dizer que eu CHOREI quando cheguei no seu parágrafo sobre o "dizer SIM", sério. Foi lindo, lindo, lindo, sua poesia não foi só nos códigos dessa vez, mas no ato de expressar também. Parabéns por essa nova fase, por ser ouvido seu leitmotiv na hora certa, porque você é incrível e merece!

  • Letícia

    Caraca!!! Obrigada por essa reflexão ♥
    Abraços!
    Dose de Estrela

  • Amanda

    Olá!
    Acompanho seu blog a um tempão e na real, depois que me afastei do universo dos blogs por um tempo, lembre-me dele.

    Este post que escreveu caiu como uma luva para esta quarentena. Sinto-me na mesma rs. Meu atual emprego não me satisfaz no quesito 'eu superior'. Porque o que você chama de leitmov, eu chamo de 'eu superior'. Dentro das minhas crenças espiritualistas, isso faz bastante sentido rs.

    Por este mesmo motivo acabei voltando com meus textos pessoais, depois do meu projeto podcast ter entrado em hiatus.

    Fico feliz que tenha seguido seu coração e que tenha tomado essa coragem. Largar o medo, mas também o apego materialista e a segurança que um salário traz, para dar espaço a humildade e a coragem, amor… requer muita maturidade, que talvez o seu 'eu' de alguns anos atrás, não saberia lidar.

    Tudo tem seu tempo mesmo…
    Belo texto.

    Sucesso com seu studio!

  • Ana Beatriz

    Nossa, eu simplesmente amei esse post.
    Esse sentimento que nos chama a atenção, mesmo que timidamente. Que fica no nosso ouvido, que aparece de vez em quando. O meu leitmotiv (amei a palavra), é também a minha intuição: algo que já me ajudou tanto, mas tanto, em muitos momentos. É o sentimento no estômago de quando eu preciso arriscar, ou quando eu devo dar meia volta, seguir meu instinto, e não apenas o meu sentimento aflorado.
    Um livro que eu gosto e que fala muito sobre isso é "Mulheres que Correm com os Lobos."

  • yasnaya

    Foi uma delícia ler seu e-mail hoje, fiquei tão feliz!! Já tive esse sentimento lá pelos meus 30 anos quando percebi que meus sonhos são inadiáveis! E o momento é agora sabe…
    Estou escrevendo um conto sobre uma freelancer com sentimentos parecidos, ler seu relato foi como Invisible String, como já escreveu/cantou Taylor Swift. Eu amei!! Fez todo sentido para mim e me deu inspiração.

    xero

  • Talita

    MUITO ORGULHO DE VOCÊ! Eu sempre achei um ABSURDO você ter esse medo, dado a qualidade do seu trabalho, tua dedicação, e sabendo que teus clientes sempre reconhecem isso. Mas sim, tudo tem seu tempo, e tô muito feliz que ele chegou pra você, amiga. Vai com tudo que é TUA! <3

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