Pessoalidades

A dor dela é a dor de todas nós

Há alguns dias atrás, de manhãzinha, indo para o ponto de ônibus trabalhar, um rapaz passa de bicicleta no acostamento da rua olhando para mim sorrindo e balbuciando coisas que não entendi, mas eu sabia que era algo que eu não gostaria. Olhei feio para ele e respondi (quanto arrependimento!). Não deu nem um segundo ele olha de volta para mim uma cara muito ameaçadora. Apavorei; logo pensei: vou morrer aqui mesmo. E me desembestei a correr até o ponto de ônibus. Enquanto eu corria, já nem sabia onde ele estava mais, e mesmo assim eu me perguntava: Será que ele está vindo atrás de mim? Será que ele sabe onde eu moro? Será que ele vai estar escondido para ver que ônibus que pego? Isso, meus carxs, é o reflexo da cultura do machismo.

Quando eu tinha uns 15 anos, fui abordada na rua por um carro com 4 rapazes falando besteira para mim. Não respondi, ignorei como se não fosse comigo. Como se já não tivesse bastado, este carro deu meia volta na rua e eles voltaram a falar comigo me chamando de gostosa e vagabunda porque eu não tinha respondido eles. Apavorei; logo pensei: vou morrer aqui mesmo. E me desembestei a correr e entrar no primeiro estabelecimento que encontrei. Isso, meus carxs, é o reflexo da cultura do machismo. Reflexo da cultura na qual eu sou apenas um objeto.

Foto por Chelsea Francis - A dor dela é a dor de todas nós - madlyluv.com

Quantas vezes nós, mulheres (cis ou trans), nos apavoramos e pensamos que morreríamos ali mesmo, mortas de medo ao ver um homem que mexe conosco na rua? Quantas vezes não queríamos estar acompanhadas por alguém para nos sentirmos mais seguras? Quantas vezes deixamos de sair na rua a noite com medo de sermos abordadas? Quantas vezes morremos de medo de estarmos sendo perseguidas na ida ao trabalho, faculdade, escola ou um passeio? Quantas vezes morremos de medo de sermos sequestradas e estupradas em seguida? O medo de assalto e roubo é o de menos. Antes nossos pertences materiais do que levar o há de mais precioso: a nossa paz, nosso direito de dizer não e de nosso corpo. Essa é a realidade e o medo que enfrentamos todos os dias.

Diante da notícia da jovem de 16 anos que foi estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro (como se um já não fosse horrível o suficiente), me senti violada e ferida novamente como me senti dias atrás na rua — só que desta vez muito pior, porque eu me coloquei no lugar dela e pude sentir uma fração de toda a dor que ela sente (porque sim, é um tipo de dor que se leva por uma vida toda). Eu queria poder estar lá e tirar de cima dela todos os agressores e aninha-la em meu colo e dizer que ela não está sozinha. Mexeu com ela, mexeu comigo também.

O caso dessa jovem é muito semelhante ao caso da mulher de 23 anos que foi estuprada no ônibus na Índia só por estar fora de casa a noite, voltando do cinema com um amigo. O estupro coletivo foi para dar uma lição a ela, pois "mulher de bem não fica fora de casa à noite" (ela morreu 13 dias depois por não aguentar os ferimentos). Já o caso de nossa jovem daqui do Rio foi estuprada porque supostamente traiu o namorado (que foi um dos agressores). E por que é semelhante? Para todos estes agressores a culpa pelo estupro é da mulher, e jamais culpa deles. Esses casos se repetem todos os dias ao redor do mundo.

O drama dessas jovens, e de todas as outras vítimas de abuso, é o drama de toda mulher que vive na cultura do estupro. Cultura na qual homem se acha no direito de filmar uma mulher sem o consentimento da mesma, que acredita que estuprar é para dar um "corretivo" na mulher por algo que ela fez. Que mulher é objeto, inferior, que precisa ficar sob domínio. Que culpa a vítima por qualquer ato machista imposto sobre ela: seja por sua roupa, pelo horário em que andava na rua, por ter traído o namorado, por ter falado um simples não, por ter uma opinião diferente, por ter reagido, por ser simplesmente mulher.

A expressão de que "todo homem é um estuprador em potencial" é só um reflexo do medo que temos todos os dias. Não estamos dizendo que você, caro leitor, que se ofendeu com o termo, é de fato um estuprador. O que acontece também é que, quando estamos na rua sozinhas e vemos um homem chegando perto de nós, não há como discernir se ele é ou não um abusador — então, consequentemente, pensamos no pior e tentamos fugir. E por que? Por que essa é nossa forma de se defender? Sabemos que é chato generalizar, mas o que acontece é que precisamos disso para sobreviver. Diante de uma sociedade da qual a vítima é culpada e julgada, da qual o agressor sai impune, nós temos todo o direito de ter este medo. É o reflexo da cultura do estupro.

Não há cabimento algum dizer que o abuso não teria acontecido se a jovem estivesse em casa ou se fosse "recatada e do lar", pois nem dentro de nossa própria casa estamos 100% seguras de um abuso. Sabia que 67% dos casos de abusos são provocados por parentes ou pessoas próximas a vítima? Que 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes e, infelizmente nem um terço dos casos são notificados à polícia? O perigo nem mora ao lado, mas literalmente dentro de casa ou entre a nossa própria roda de amigos! O abuso também pode acontecer na escola, na igreja, ou até mesmo no metro ou indo para o trabalho. E em nenhum momento a vítima quis isso.

É uma de nós a cada 11 minutos no Brasil. Isso porque são apenas os casos registrados. E a pergunta que não nos cala: até quando? Até quando vamos viver numa cultura que em rede nacional um cara confessa de forma cômica que estuprou alguém e todo mundo da plateia ri e aplaude? Até quando vamos viver numa cultura onde o a cultura do estupro é banalizada? Até quando vamos viver num mundo onde o homem "pegador" é legal porque é "coisa de homem", "instinto animal" por ter "carne fraca", enquanto mulher "pegadora" é "cachorra", sem valor, porque não se deu o respeito?

Homens, por favor, ao invés de se ofenderem com o termo, nos ajude a lutar para que ele deixe de existir. Sejam parte da solução, isso é de extrema importância! Ao invés de ensinarem suas filhas que elas precisam ser recatadas e se cuidarem do "instinto animal do homem" (percebe o quanto isso é absurdo?), ensinem os seus filhos a respeitar uma mulher e não objetifica-la. Ao ver um amigo falando mal de uma mulher e ofendendo-a pelo seu gênero, repreenda-o! Saiba que um "não" (expresso verbalmente ou por linguagem corporal) é de fato um não, e respeite essa decisão.

A dor dessa jovem é uma fração maior da dor que todas nós sentimos todos os dia, a cada ato machista que sofremos em nosso cotidiano. Por favor, não se cale, seja a favor de nossa militância contra a sociedade machista. Vamos todos lutar por uma sociedade mais igualitária e com respeito mútuo. É um assunto que precisa ser falado e discutido. Os estupradores estão contando com você quando você não age. O seu silêncio ajuda eles e não a nós. O silêncio é cúmplice. Eu jamais vou me calar. E você também não deveria. Lute.


Atualizado em: 27/05/2016

Outro artigo com o nome parecido que este post também foi publicado nesta mesma data sobre este mesmo assunto. Só quero deixar claro que não houve intenção de plágio de título, até porque, assim que recebi a notícia (ontem, 26/05) logo comecei a escreve-lo. Demorei a publica-lo pois estive reunindo os 13 links de fontes dos quais mencionei neste post (antes que alguém diga que falo coisa sem embasamento histórico algum). O post do blog Casal Sem Vergonha só reforça o fato de que todas nós sentimos essa dor. A leitura dele também é super valida. Beijos de luz ;*


Comentários

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  • Marina Menezes

    Oi Ana! Sabe, fica até difícil deixar um comentário ou falar sobre o assunto. Como o próprio título diz, a dor dela é a dor de todas nós. Tenho vontade de chorar sempre que penso. Aconteceu com ela, mas poderia ser qualquer uma de nós. Dói mais ainda ver pessoas culpando a menina, ou colocando a legitimidade da dor dela em cheque. Como se o ato fosse menos sério ou menos grave só pelos lugares que ela frequentava, ou pelo que ela fez ou deixou de fazer nos relacionamentos…

    É tão difícil ser mulher na nossa sociedade. A gente ainda tem muita luta pra lutar.

  • Ariani Martins

    E além de tudo temos que ler comentários nos portais de notícia e páginas no facebook procurando justificativas para o ocorrido, procurando formas de culpar a menina pelo que aconteceu. É assustador como não são 33 caras que pensam assim, é muito mais que isso. E podem ser pessoas próximas… Gente da família, ou amigo de amigo, gente da rua, do bairro.

    Hoje abri o link de uma matéria que dizia que um juíz determinou a soltura de quatro adolescentes suspeitos de participação num estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos no Piauí, e o estupro ocorreu no mesmo dia em que o estupro da menina no Rio de Janeiro foi registrado… Infelizmente isso que aconteceu é real! E é assustador!

    Seu post foi lindo…

  • Ítala

    É o que sempre digo: todo mundo tem medo (seja do assalto, do golpe, da bala perdida, do acidente), mas a gente tem um pavor plus: o estupro. E esse pânico nasce dessde muito cedo e segue pra sempre.

  • Mayara Anjos

    Parece que ao recebermos essa notícia da menina estuprada foi como se nós tivéssemos sentido o peso de todos os abusos que já sofremos na vida. Infelizmente tem que acontecer uma brutalidade desse tamanho para as pessoas acordarem e lembrarem que isso existe… Eu espero de verdade que seja feita alguma coisa a partir dessa semana, que exista alguma lei ou proposta que mude esses abusos (apesar de achar que a cultura do machismo e do estupro dificilmente irá mudar). Eu também fiz um post no meu blog sobre o assunto e juro Aninha que está praticamente igual ao que você escreveu, postei hoje de manhã e estou lendo o seu blog agora! Isso só reforça que o assunto precisa ser debatido e quantos mais blogs escreverem, quanto mais pessoas falarem e tentarem mudar melhor!

  • Lary

    Cada dia sinto mais dificuldade em ser mulher, em viver nesse mundo onde somos culpadas pela dor que os outros infligem a nós, mulheres. Nada dá direito aos assediadores e estupradores de achar que merecemos ou queremos. O limite deles acaba quando nos impomos o nosso. O não é não, mesmo que eu não use essa palavra explícita, e a confusão deles de entender isso diz mais sobre eles do que sobre nós. Não a cultura do estupro, não ao machismo, não a desigualdade de gênero, não a ser oprimida, porque isso existe sim. Precisamos lutar, precisamos de apoio, precisamos ir juntas! Você sabe que fiquei extremamente abalada, triste, angustiada e nervosa com a notícia, com a reação das pessoas e que to vendo pouca esperança. Só penso na menina, que dizem ter procurado o ato (se tivesse procurado, não seria estupro) e penso nos homens que estão mais preocupados em não ser comparados com os estupradores do que em de fato combater essa violência. Os valores estão invertidos, e quando se tenta argumentar, sendo contrária à "opinião" deles vem mais opressão e mais silenciamento. Todo homem é um possível estuprador, toda mulher se sente insegura, e o clima de terror é justificado pelos dados, isso quando o fato é denunciado. Caro amigo, não diga que não existe, não silencie mais as vítimas, não se culpe, nãos desmereça a luta e o sofrimento, e, por fim, não peça parabéns e tapinha no ombro por "não ser um estuprador", você não faz mais que sua obrigação. Quer fazer mais? Lute a nossa causa e respeite as minas.

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